Workshop de Design Livre na ESEV

No passado dia 28 estivemos na ESEV, no nosso primeiro workshop de Design Livre, a convite do OpenLab. Este workshop de 6 horas tinha como objectivo fazer uma introdução a ferramentas de software livre para design e composição.

Enquanto planeávamos a estrutura do workshop, percebemos que a nossa abordagem ao tema não poderia seguir apenas a vertente técnica do tema. Como profissionais na área do design que usam exclusivamente ferramentas livres no seu contexto profissional, e que o fazem como uma escolha consciente, compreendemos que este é um dos pontos centrais da nossa prática — e como tal incontornável de abordar e contextualizar. Assim, começámos com uma apresentação do nosso estúdio, falando sobre a nossa metodologia de trabalho, a nossa escolha de ferramentas e a forma como esta define a nossa prática.

No campo do design, as ferramentas livres são quase sempre desvalorizadas e apontadas como 'versões pobres' dos seus pares proprietários. A parte mais inconsistente desta crítica é que, na maioria das vezes, é feita por pessoas que usaram software livre durante muito pouco tempo. Depois de 5 anos a usar um programa proprietário, não é com 10 minutos de uso que se poderá fazer um juízo justo sobre o potencial da sua alternativa livre. Não é, assim, surpreendente que exista pouca adesão a estas ferramentas; isto é potenciado pelo facto de as ferramentas livres não fazerem parte dos currículos de design e outras áreas artísticas (com excepção de alguns cursos na ESEV :), além de haver ainda poucos profissionais a utilizá-las.

Continuámos a apresentação com uma mostra de trabalhos de design feitos com software livre. Entre os exemplos que levámos estava o catálogo e identidade da exposição Suturas & Fragmentos pelos OSP, um colectivo de design belga ou o livro FLOSS+Art, um conjunto de ensaios teóricos sobre o papel das metodologias livres na criação e reflexão estética.

Suturas y Fragmentos, Open Source Publishing

Esta introdução serviu para falar sobre a importância das nossas escolhas em termos de ferramentas, e também para acabar com a ideia de que não é possível realizar um trabalho de design com software livre, seja ele um cartaz, um livro, ou outro, do esboço inicial ao ficheiro final de impressão que segue para a gráfica.

Antes da pausa do almoço, fizemos a introdução da proposta de trabalho que iria ocupar a tarde: a paginação de um texto escolhido de uma seleção nossa de 15 textos sobre cultura livre (todos eles com licenças permissivas), num formato de pequeno livro. O objectivo era acabar o dia com uma coleção que intitulámos de Livros Livres. Como introdução ao programa de paginação Scribus, criámos em conjunto o nosso documento. Mostrámos como definir as dimensões da página, margens, mancha da caixa de texto e grelha. Saímos para o almoço com a base do documento em que iríamos trabalhar à tarde já criada e com a capa em mente.

Esquema do livro

À tarde voltámos à carga no Scribus e definimos estilos para texto e parágrafos, master pages e numeração automática. A meia hora seguinte foi usada para terminar a paginação do texto. No quadro desenhámos um esquema com a ordem de páginas à qual o livro deveria obedecer.

Com o mote da capa fizemos a introdução ao Inkscape, um programa para desenho vectorial. Uma vez que toda a gente tinha já familiaridade com o uso de programa para desenho vectorial optamos por fazer uma demonstração das nossas ferramentas preferidas e que tornam este um programa único. Primeiro as coisas mais simples, como os gradientes de cor para transparente, que podem ser aplicados a formas e a linhas. Depois as curvas Spiro, um tipo de curva diferente da bézier, que permite criar formas sinuosas muito facilmente. De seguida mostramos os Tiled Clones, uma ferramenta que serve para criar padrões a partir de uma forma ou um grupo de formas, e que permite, entre outras coisas, usar uma forma para preencher uma imagem bitmap (ver imagem). Tínhamos ainda uma lista extensa de ferramentas mas achamos que estas quatro seriam uma boa introdução que, deixaria ainda espaço para explorar o programa enquanto a capa era desenhada.

Capa para o texto Anarchism Triumphant, de Eben Moglen, feita durante o Workshop

Acabado o tempo para a fazer a capa mostramos como exportar a imagem (para formato pdf ou bitmap). E. mesmo quase a chegar ao final do workshop, deixamos uns minutos para abrir o FontForge e editar uma das fontes livre que estávamos a usar na nossa paginação (para o nosso exemplo usamos a Cantarell). Modificámos um caráter e exportamos a fonte como novo nome. Feito isto voltamos ao Scribus, importámos a capa desenhada no Inkscape e substituímos a fonte no nosso estilo pela fonte que tínhamos acabado de criar. Por fim, seguimos mais uma vez em conjunto, a passo e passo, o diálogo de exportação do documento Scribus para pdf.

Chegamos ao final do workshop com o objectivo cumprido: cada participante ou grupo tinha produzido um pequeno livro, com dimensões 130 mm por 180 mm, pronto a montar. A única coisa que não tivemos tempo de fazer foi imprimir e agrafar todos os livros. Foi nessa altura que anotámos, para futuros workshops, a necessidade de ser inflexível com os tempos programados para cada parte. Especialmente, durante a paginação e o desenho da capa, uma grande parte do tempo foi gasta a experimentar as ferramentas demonstradas e a testar diferentes fontes e cores.

Em retrospectiva, achamos que o formato do workshop de Design Livre resultou bem. Além de introduzir os programas — Inskcape, Fontforge e Scribus — que eram a vertente técnica, tocámos em pontos importantes da prática do design — princípios de composição e paginação—e fizemos a ligação entre estes e as metodologias livres — uso de ferramentas livres e licenças permissivas.